Nem tudo o que é evangélico é bíblico – sobre o pecado

02/04/2009 § Deixe um comentário

Pr. Eugênio Anunciação

Antes de mais nada, preciso afirmar que este tópico não será uma apologia ao pecado. Jamais! A proposta é entender biblicamente o que o cristianismo compreende como pecado.
Entre os evangélicos, há a clara compreensão de que pecado pode ser listado por uma série de atitudes externas. Basicamente, do ponto de vista evangélico, pecado é caracterizado por ações externas erradas. Por isso, a maneira dos evangélicos lidarem com o pecado, é através de proibições e “doutrinas”. Aqueles que não cumprirem estas proibições, perderão a salvação.
É comum ouvirmos no meio evangélico que, não é fácil ser cristão. Diante da menor escorregadela, pode-se perder a salvação. Por isso há uma carga tão grande sobre eles, para que possam alcançar o céu por mérito. Não por coisas boas, mas por não fazer coisas erradas… Nada mais espírita!
O que Jesus falou sobre o pecado
Em uma conversa com as pessoas que lhe acompanhavam, Jesus fez questão de enfatizar que o pecado, antes de ser medido em atitudes externas, é uma atitude de coração. No primeiro momento, elas nada compreenderam, então Jesus lhes explicou: “Será que vocês também não conseguem entender? Não percebem que nada que entre no homem pode torna-lo ‘impuro’? Porque não entra em seu coração mas em seu estômago, sendo depois eliminado (…) O que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro.” (Marcos 7.18-23 – NVI).
Em outras palavras, antes do pecado ser dimensionado em termos de atitudes externas, ele deve ser compreendido em termos internos. Os pecados citados pelo Senhor Jesus são apenas conseqüência de um coração inerentemente contaminado.
Em outra passagem, Jesus afirma sobre o pecado enquanto disposição de coração antes de ser uma atitude errada: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás.’ Mas Eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela em seu coração.” (Mateus 5.27-28 – NVI).
O que a Bíblia afirma sobre o pecado
O pecado é a inclinação natural que temos para o mal. Isto é muito forte e duro, mas é a verdade: somos incapazes de fazer o bem. Em outras palavras, pecado é fazer algo errado mas, também, deixar de fazer algo bom.
O pecado é uma herança. Herdamos isso de Adão e Eva (Romanos 5.12). Não existe ninguém puro. A Palavra de Deus é enfática ao afirmar que todos pecaram porque nasceram pecadores. Muitas das desgraças que acontecem em nosso mundo, desde problemas ecológicos a problemas relacionais, são fruto de nosso pecado. Guerras, brigas, roubos, corrupção, pobreza, injustiça, são excelentes retratos da natureza humana.
Desde pequenos, já temos essa inclinação ao mal (Salmo 51.5). Se as coisas não acontecem no momento que queremos, choramos, esperneamos, fazemos birra, até que nossos desejos sejam satisfeitos. Todo ser humano possui essa tendência de viver a vida, como se fosse o centro do universo. Distantes de Deus…
Alguns teólogos definiram o pecado nestes termos:

“A mãe de todos os vícios é a soberba” – Tomás de Aquino

“Todo pecado é orgulho” – Reinhold Niebuhr

“A soberba é a raiz de todo pecado” – Dietrich Bonnhöeffer

O nosso coração é essencialmente orgulhoso! Por isso somos inclinados a fazer o mal. Quando vemos alguém realizar coisas aparentemente boas, como não roubar, não matar etc. – até pensamos que a natureza humana pode ter algo de bom – mas leia Jeremias 17.9 com atenção: é um excelente retrato do coração humano.
O nosso coração é naturalmente corrupto. Muitas de nossas “boas ações”, são na realidade, motivadas por outras razões: desencargo de consciência, orgulho, livrar-se de um incômodo… Por isso, necessitamos desesperadamente da presença de Deus em nossas vidas!
A grande tentação lançada no jardim do Éden (Gênesis 3.5), ecoa até hoje: “como Deus, serão conhecedores do bem e do mal”. Sermos deuses. Sermos importantes. Sermos o centro do universo. Sermos admirados. Sermos exaltados. Sermos como Deus! Disso, vêm muitas de nossas “boas ações”: “Vejam como eu sou bondoso, como me preocupo com as pessoas…” Disso vem muito de nossas ações exigindo “respeito”: “Você sabe com quem está falando?” Disso vem muito de nossas ações exigindo “justiça”: “Isso não pode acontecer comigo. Eu não mereço!”
Quanto mais o pecado tem o controle de nossas vidas, mais distantes nos encontramos de Deus. De acordo com Gênesis 4.7, o papel do pecado é controlar por completo nossas vidas, levando-nos a uma vida de independência de Deus e de dependência completa do pecado. Quanto mais nos achamos livres para “tomar conta do nosso próprio nariz”, mais nos tornamos presos ao pecado (João 8.34).
O que a Paulo fala sobre o pecado e o cristão
O pecado, como vimos, é uma inclinação para o mal. Ele nos distancia de Deus, não por causa das atitudes erradas, mas por causa da postura errada do coração. Resumidamente, pecado é a tentativa humana de viver independente de Deus, assumindo o controle da própria vida.
Em dois momentos na primeira carta de Paulo aos coríntios, entendemos a visão que o apóstolo possuía acerca do que era pecado.
Para Paulo, atitudes externas não conseguiriam falar mais alto do que a postura do coração. No capítulo 8, a pergunta que ele está respondendo aos irmãos coríntios, é acerca da comida sacrificada a ídolos: “É pecado comer este tipo de comida?” (Quem não lembra imediatamente a lista de proibições dos evangélicos? – é pecado ouvir música “do mundo”, é pecado comer comida de determinada lanchonete, pois ela tem pacto com o diabo, e por aí vai…).
A resposta de Paulo, tem sua base nos versículos 1 a 3 do capítulo 8: “Com respeito aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria. Mas aquele que ama a Deus, este é conhecido por Deus.” (NVI).
Em outras palavras, Paulo se recusava a responder esta pergunta sem antes estabelecer que toda a discussão não deveria ser feita com base no conhecimento, mas no amor. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica.
Paulo, com isso, apela para o conceito de liberdade do cristão (veja Gálatas 5, para entender a ideia de Paulo sobre liberdade cristã). Na sequência do capítulo 8 de 1 Coríntios, Paulo enfatiza após afirmar que comer ou não comer os alimentos sacrificados a ídolos não teria a menor importância diante de Deus: “Contudo, tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês não se torne uma pedra de tropeço para os fracos. Pois se alguém que tem a consciência fraca vir você que tem este conhecimento comer num templo de ídolos, não será induzido a comer do que foi sacrificado a ídolos? Assim, esse irmão fraco, por quem Cristo morreu, é destruído por causa do conhecimento que você tem. Quando você peca contra seus irmãos desta maneira, ferindo a consciência fraca deles, peca contra Cristo. Portanto, se aquilo que eu como leva o meu irmão a pecar, nunca mais comerei carne, para não fazer meu irmão tropeçar.” (1 Coríntios 6.9-13 – NVI).
Paulo apenas ensina aquilo que aprendeu do Senhor Jesus: o pecado (que é orgulho de viver uma vida independente de Deus), é mais uma postura do coração do que de atitudes externas.
Em outras palavras, Paulo está orientando aos irmãos coríntios que tudo o que for feito de maneira egoísta (orgulhosa) e não por amor aos mais fracos, é pecado. Comer alimento consagrado aos ídolos não é pecado. Agora, comê-lo, sabendo que com isso causaria escândalo na vida de irmãos mais fracos na fé e não ter o cuidado e o zelo de cuidá-los, isto sim é pecado!
Conclusão
Antes de listarmos e rotularmos as pessoas com seus pecados, devemos amá-las. Apenas isto! O que é mais pecado: mentir ou roubar?, assassinar ou xingar?, adulterar ou olhar para uma mulher com desejo impuro?
É óbvio que pessoas que entregaram sinceramente suas vidas ao Senhor Jesus, como resposta à Sua maravilhosa Graça, foram libertadas do aprisionamento que o pecado causava em suas vidas. Por isso, agora elas são livres. Nas palavras de Paulo, podem fazer quaisquer coisas. São livres para fazer o que quiserem. Entretanto, não farão qualquer coisa, porque o padrão das atitudes do cristão realmente redimido está sobre dois pilares:
1. Tornem-se meus imitadores como eu o sou de Cristo (1 Coríntios 11.1 – NVI)
2. “Tudo é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo é permitido”, mas nem tudo edifica. Ninguém deve buscar o seu próprio bem, mas sim o dos outros [irmãos mais fracos na fé] (1 Coríntios 10.23-24 – NVI).
Resumindo: TUDO O QUE NÃO É FEITO, MOVIDO POR AMOR A DEUS E AO MEU PRÓXIMO, ISTO SIM É PECADO!!!

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