A IMPORTÂNCIA DAS CÉLULAS

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Pr. Eugênio Anunciação

O grande desafio do cristianismo atual é falar às pessoas do século XXI, sobre o amor de Deus por elas, em uma linguagem que lhes seja acessível.

Enquanto algumas pessoas estão desconfiadas das igrejas evangélicas e suas normas e doutrinas, outras estão à procura de alguma religião que lhes permita sufocar ou ao menos aliviar a culpa existente em seus corações. No fundo, todo ser humano sabe que necessita de Deus, mas gosta de pensar que todos os caminhos levam a Ele. O Cristianismo, entretanto, se contrapõe à própria ideia de religião, por duas questões: 1) Não é baseado em rituais, mas em relacionamentos e 2) Afirma que há apenas um caminho até Deus: Jesus. Em outras palavras, todos os caminhos (religiões) não levam a Deus, mas nos afastam dEle!

Um dos grandes anseios das pessoas do século XXI é a busca incessante por felicidade. Há uma sensação de vazio no coração humano. Os relacionamentos estão fragilizados. As pessoas, de um modo geral, não conseguem mais gerenciar seus dramas. Elas sofrem em seus relacionamentos. Esta fragilização dos relacionamentos humanos, pode ser identificada também, nas relações existentes nas sociedades humanas. Na verdade, faltam referências de relacionamentos saudáveis.

A busca por relacionamentos saudáveis que respondam aos anseios humanos por felicidade é facilmente observável em todos os ambientes relacionais: família, vizinhança, escola, trabalho e igreja.
Carl Rogers, um psicopedagogo norte-americano criador da linha de psicologia conhecida como Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), afirmou certa vez que a busca humana por relacionamentos saudáveis: “(…)[é] uma fome de qualquer coisa que a pessoa não encontra no seu ambiente de trabalho, na sua igreja, e com certeza também não na sua escola ou universidade, nem mesmo, infelizmente, na moderna vida de família. É uma fome de relações próximas e verdadeiras, em que sentimentos e emoções possam manifestar espontaneamente, sem primeiro serem cuidadosamente censurados ou dominados; em que experiências profundas – decepções e alegrias – se possam mostrar; em que se arrisquem novas formas de comportamento e se levem até ao fim; em que, numa palavra, a pessoa atinja a situação em que tudo é conhecido e aceito, e assim se torne possível uma maior evolução.1”

Cremos que a estratégia de Igreja em Células é um movimento interessante para os dias nos quais vivemos, pois pode ser usada para responder a este anseio das pessoas do século XXI, principalmente na fragilidade de seus relacionamentos.

RESTAURANDO RELACIONAMENTOS, RESTAURANDO PESSOAS
Os relacionamentos humanos são, ao mesmo tempo, o maior tesouro que o ser humano possui e, também, a sua maior dificuldade. Relacionamentos saudáveis ajudam a desenvolver pessoas equilibradas, enquanto relacionamentos confusos contribuem para a formação de pessoas doentes e machucadas. O ser humano pós-moderno tem desenvolvido o medo de relacionar-se.

Na realidade, esse medo é fruto de um outro medo mais interior ainda: o medo de ser rejeitado. Todos nós sofremos decepções e frustrações em nossos relacionamentos, desde pequenos. Com isso, desenvolvemos proteções, cascas que nos isolam da possibilidade de sofrermos novamente e de nos sentirmos usados ou humilhados. Uma característica distintiva do ser humano pós-moderno, resultado deste medo, é o individualismo, gerador de ativismos que também pode representar um substituto insatisfatório para os relacionamentos, pois as pessoas tornam-se “ocupadas” demais para cultivar amizades2. Esse medo tem levado as pessoas a um individualismo sufocante e alienante da realidade do outro e da realidade de Deus. Com isso, vivemos dias de intenso consumismo e busca desenfreada pelo prazer. O resultado de toda essa trajetória egocêntrica é o esfacelamento de relacionamentos. É um ciclo vicioso que tem alimentado este enfraquecimento dos relacionamentos.

Como igreja em Células, entendemos que as Células, nos ajudam a termos os olhos voltados para Deus e para o próximo, libertando-nos do individualismo.

O aspecto comunitário das Células nos permite estar abertos a Deus e ao outro. Henri Nouwen, afirmou certa vez sobre a importância da comunhão: “a comunhão nos torna pessoas; isto é, pessoas que estão ressoando umas nas outras (a palavra latina personare significa ‘soar através’). Na verdadeira comunhão, somos janelas oferecendo, umas às outras, novas visões do mistério da presença de Deus em nossas vidas3”.

James Houston identificou este ressoar, como um processo de caminhada de intensa intimidade onde todos precisam ser levados por outros, para aprender a valorizar o “outro” de modo a não tornar-se autístico, egoísta ou egocêntrico. A isto ele chamou como processo de ”outrar”, isto é, aprender a valorizar a riqueza educacional presente nos relacionamentos com os outros e também, as habilidades sociais que eles nos ajudam a desenvolver4.

O relacionamento nas Células, envolve uma aproximação intencional dos nossos irmãos na fé, para aprendermos a ser libertos deste processo de individualização. Um antigo ditado na língua xhosa afirma: “Pessoas precisam de pessoas para serem pessoas”. Este é o desafio das Células: ser um ambiente onde as pessoas possam tornar-se pessoas, com o aprendizado mútuo e a troca de experiências.

Em nossa experiência comunitária com Células, temos presenciado momentos intensos e importantes de restauração e cura. Pessoas que lutavam há muito tempo com sentimentos aprisonadores, encontraram na Célula, oportunidade para serem libertadas. Relacionamentos familiares rompidos há muito tempo, sendo restaurados. Casamentos desfeitos sendo reorganizados. Sentimentos de culpa sendo vencidos na troca de experiências. Situações como estas, só puderam ser experimentadas em um ambiente de segurança e pastoreio mútuo; algo que num culto seria muito mais difícil.

Nos cultos, as pessoas são confrontadas pela Palavra de Deus, com os valores do Seu Reino, mas não encontram espaço para apresentarem suas inquietações frente aos novos valores apresentados. Nas reuniões das Células, elas são confrontadas com seus valores do antirreino. Quando os valores do Reino de Deus são apresentados, em contra-posição com os valores do antirreino, inicia-se um processo de transformação no modo de vida das pessoas. Torna-se apenas questão de tempo e de compreensão pessoal. E isto, apenas o Espírito Santo de Deus pode realizar na vida de cada um.

RESTAURANDO UMA FORMA CRISTÃ DE VIDA
Um outro fator importante e exaustivamente defendido pelos estudiosos da Igreja em Células, é a possibilidade de um retorno a um cristianismo menos evangélico e mais cristão.

A Igreja iniciante, como lemos em Atos, apresenta o impacto causado pelos irmãos e irmãs em sua época, na sociedade na qual viviam. Esta Igreja era baseada em relacionamentos, no templo e de casa em casa. O seu modo de vida era marcado por grande simplicidade, pois além da adoração no templo (herança judaica), havia também, reuniões nas casas dos cristãos, para o partir do pão e da comunhão na refeição5. No início da Igreja cristã, os cristãos se reuniam nas catacumbas, como forma de se protegerem contra as perseguições, e para celebrarem a Ceia do Senhor, com os seus irmãos que haviam morrido no Senhor. Entretanto, muito mais que nas catacumbas, os cristãos se reuniam em casas particulares6.

Com a transferência do lugar do culto, das casas particulares, onde havia a comunhão, para os santuários – denominados templos – houve a impressão de que já não eram todos iguais, como irmãos e irmãs em Cristo, mas diferenciados entre sacerdotes e povo leigo7. Cada vez mais o culto cristão deixou de ser uma celebração viva do povo do Deus vivo – família do Senhor – para tornar-se uma liturgia ritualística e religiosa. Em vez de relacionamentos, a ênfase estava na religião: dogmas e rituais que precisavam ser seguidos rigidamente. Cristo não era mais o centro do culto cristão, mas a presença do sacerdote.

Com o passar dos anos, cada vez mais a figura do sacerdote religioso foi sendo estabelecida como a de um mediador, de um homem santo, acima dos demais mortais, que poderia ter um contato mais íntimo com Deus. Suas orações seriam definitivamente ouvidas e suas palavras absolutamente verdadeiras. Na reforma protestante, uma das principais propostas, envolvia o sacerdócio universal dos cristãos. Entretanto, à medida que a igreja reformada estabelecia-se, cada vez mais assumia esta mesma distinção entre homens santos e pessoas pecadoras.

A Igreja em Células procura resgatar este valor bíblico e reformado: o sacerdócio universal dos cristãos. Todos os que foram salvos pelo Senhor Jesus Cristo, são seus sacerdotes neste mundo. Suas orações serão ouvidas e suas palavras, pautadas na Palavra de Deus, serão verdadeiras. Um dos valores centrais da Igreja em Células é a descentralização. A figura do pastor como elemento central do modo de vida da igreja local perde força, no sentido dele não ser mais o responsável por todos os esforços da igreja, mas fortalece-se, também, no aspecto dele identificar e preparar os santos para a obra do ministério (Efésios 4.12). Em outras palavras, o pastor volta a estar equiparado aos irmãos e às irmãs, podendo serví-los, consciente do grande desafio de levá-los a serem usados pelo Senhor para responder aos anseios das pessoas em nossa época.

Mais do que falar sobre Jesus, os irmãos e as irmãs, serão desafiados a viverem Jesus. Suas ações falarão mais alto do que suas palavras! Nos relacionamentos nas Células, as pessoas que encontram-se angustiadas poderão ser amadas por Cristo, pelo Seu Corpo, composto por Seus filhos e filhas, acolhendo-os e recebendo-os em nome do Senhor!

O resultado deste relacionamento saudável, será que padrões do Reino de Deus serão, então, estabelecidos, pois o Espírito Santo de Deus, que habita em Seus filhos, lhes conduzirá na troca de experiências, para que os novos convertidos, impactados com o amor de Deus e os padrões de Seu Reino possam ter as suas vidas transformadas.

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Citações:
1.ROGERS, Carl. Grupos de Encontros. p. 12 e 13
2.HOUSTON, James M. Mentoria Espiritual. p.18
3.NOUWEN, Henri J. M. Tudo se fez novo. p.84
4.HOUSTON, James M. Mentoria Espiritual. p.10
5.LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. p. 329
6.MAXWELL,William D. El culto cristiano. p. 27, 28
7.DRANE, John. A vida da Igreja primitiva. p. 73

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2 comentários sobre “A IMPORTÂNCIA DAS CÉLULAS

  1. Milene silva

    Nossa…gostei muito da palavra, é assim que devemos agir para Cristo ,em comunhão entre os irmãos para que Jesus possa ser glorificado e assim ganharmos mais vidas pra Ele.

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